Canal Social

23 mar
2018

Alunos de escolas da Restinga e Lomba do Pinheiro vão ao cinema assistir o filme Pantera Negra

Por: Jennifer Van Leeuven

* Alunos das escolas da Rede Municipal de ensino

Com os rostos pintados e sorriso nos lábios as crianças das escolas da Restinga chegaram ao Shopping Praia de Belas para assistir ao filme Pantera Negra. Para aproveitar o Dia Internacional contra a Discriminação Racial, os projetos afrocentrados desenvolvidos nas escolas da Rede Municipal de Ensino levaram nesta quarta-feira (21/03), cerca de 100 alunos das Escolas Municipais de Ensino Fundamental Senador Alberto Pasqualini, Larry José Ribeiro Alves e Mário Quintana, da Restinga e EMEF Sain’t Hilaire, da Lomba do Pinheiro,  para um momento de lazer e aprendizado.

* Alunos foram com pinturas étnicas

A ideia começou a surgir em janeiro deste ano, quando os professores participaram de atividades da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social e Esporte (SMDSE), no Centro de Comunidade da Vila Restinga (CECORES), um grupo de educadores se uniu para pensar nas possibilidades de trazerem os alunos para dentro do cinema. Convocaram a assessora da Secretária Municipal de Educação (SMED), Patrícia Pereira para auxiliar na organização. Os professores perceberam a necessidade de mostrar aos alunos a cultura negra, e a possibilidade de ver uma outra África. Após a estreia, se reuniram na praça de alimentação, começaram a planejar, e tiveram a ideia de criar um evento no facebook e buscar doações para a mobilização das crianças. Para a professora Perla dos Santos, a importância da iniciativa estava na representatividade, “temos que movimentar a comunidade, os alunos precisam ver que a cultura deles pode ser exibida pela mídia de uma forma positiva”, acrescentou. Além da criação do evento no facebook para arrecadar doações financeiras, as professoras fizeram a campanha da vaquinha para arrecadar os valores suficientes para trazer os grupos. Para muitos alunos, foi a primeira sessão de cinema, ao passarem pelo saguão de entrada se encantavam com os cartazes e tapetes vermelhos. Em seguida passaram para dentro da sala de projeção em 3d, estavam muito maravilhados e ouvia-se expressões de “uau, “silêncio”, “oh, começou”, “ele fica invisível”, “o mundo das panteras”, expressadas por eles.

* Alunos das escolas se preparam para assistir ao filme Pantera Negra

Após a sessão deslumbrados com a produção do filme, o aluno Lyagne Nunes dos Santos, 12 anos, que participa do projeto “Meninas Crespas”, considera a relevância da apresentação negra no espaço do cinema. “É importante para a nossa raça, mesmo sendo pouco escura, é muito importante saber que ela está aparecendo”, afirma o estudante. O Pantera Negra apresenta a história de um herói africano, rei de um pais fictício de Wakanda, que é isolado do resto do mundo de forma a esconder uma forte inteligência tecnológica
inigualável, à base do vibranium, a cidade é uma ligação entre as raízes ancestrais do povo africano com muita modernidade. O filme traz para os alunos uma representatividade, empoderamento e uma riqueza cultural através das telas do cinema, a África tem uma cultura milenar porquê é o berço da humanidade. Em cenas do filme, é possível sentir a trilha sonora que traz a força dos tambores, os figurinos vistosos e estilizados, máscaras w exuberantes, as crenças relacionadas a dança e a beleza das paisagens. Para a professora Perla, é exibido “uma África que não é miserável, uma relação com a ancestralidade e a tecnologia, sim, podemos cada vez mais evoluir como pessoa, mas também não podemos esquecer a relação ancestral que temos” conclui a educadora. Os alunos reconhecem a importância da apresentação do filme se tornando uma forma de expandir os seus conhecimentos. A aluna Helena Santos,15 anos, diz que “É muito importante a gente se ver nas telas. Pessoas nos representando no cinema, no teatro, nas danças e nas músicas. Vivendo com a nossa cultura e nossa cor, é de de arrepiar! ”, afirmou entusiasmada. Para a pequena Aysha Gabrielle, 13 anos, “o filme é maravilhoso, fala sobre nós negros, eu não sou muito negra, mas podemos ver o respeito, a batalha que os negros têm”.

* Alunos Lyagne Nunes e Helena dos Santos, participantes do projeto Meninas Crespas

Para a professora Bárbara, mostrar que grande parte do elenco é composto por negros, é uma oportunidade para que os alunos se vejam representados, “representatividade, importa”, finaliza Brites. No mesmo sentido, a professora Larisse, diz que ‘é importante eles terem referências positivas. Infelizmente na maioria das histórias, não existam muitos super-heróis negros, eles não estão acostumados”, argumenta. Descreve o filme como uma produção maravilhosa, e considera a importância de os alunos assistirem e verem nos personagens apossibilidade de se encaixar na sociedade. As iniciativas nas escolas se deram por várias situações de racismo dentro do ambiente escolar como uma aluna que expos em sala de aula uma carta reivindicando o porquê questionavam a cor e o tipo de cabelo dela. Foi neste momento que nasceu o projeto “Solte o cabelo, prenda preconceito” e “Afroativos”, desenvolvidos na EMEF Sain’t Hilaire, pela professora Larisse Moraes, entre outros, como “Meninas crespas”, realizado na EMEF Alberto Pasqualini, bairro Restinga, pela professora Perla dos Santos, “Programa de Saúde na Escola”, bairro Restinga, representado pela professora Bárbara Brittes, e os que estão em planejamento. Dentre esse grupo de educadoras estão as professoras Adriana Paz, Clarice Antunes e Kátia Flores, da EMEF Larry Ribeiro Alves, que levaram cerca de 45 alunos. Nos grupos são desenvolvidas palestras e oficinas que proporcionam a diminuição do preconceito dentro e fora das escolas implementando uma cultura antirracista. Segundo a professora Larisse Moraes, “não adianta a gente lutar contra o preconceito e as pessoas continuarem com posturas antirracistas”.
São buscados formas de trabalhos sobre a diferença racial e a desigualdade nas salas de aulas, assuntos sobre a cultura e tradições. Conforme Patrícia, assessora da SMED, o ensino sobre a diferença racial “é complexo”, acrescenta que “o combate se torna duplo porquê é preciso lhe dar com livros didáticos que não traz os conteúdos de forma correta”, complementa que é necessário que os professores tenham um olhar mais redobrado sobre o assunto. Seguindo este pensamento a professora Bárbara Brites, diz que muitas vezes não há informações e referência histórica, “muitos professores não se sentem preparados para lecionar conteúdos afrocentrados” conclui. É uma comunicação essencial nos projetos desenvolvidos pelas escolas, esses encontros geram relacionamentos entre os alunos e professores, combatendo o preconceito. Muitos alunos relatam sobre as agressões preconceituosas, “em nossos encontros eles falam que o preconceito ainda existe, e hoje, possuem lugar para falar sobre isso, que é o projeto”, afirma Perla. Para a professora, lidar com a diferença racial no ambiente escolar é complicado, segundo ela, devido aos fatos que ainda acontecem de forma velada. A tarde finalizou com muita risada e imitações do filme, as crianças brincaram dentro do cinema como se fossem os personagens, independentemente da posição social, escolhiam todas as formas de serem representados.

* Alunos se divertem ao final da sessão


Reportagem e Fotos:
Jennifer Van Leeuven
Jornalista

* Produção colaborativa

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